Por que parcela significativa dos latinos nos EUA votou em Donald Trump?
Marcos Antonio Fiorito* (Artigo publicado em blogs e outros veículos em novembro de 2024).
Quem diria! No frigir dos ovos, parcela significativa dos latinos votaram em Trump. Kamala acabou preterida, apesar da campanha democrática representar um avanço nas pautas de diversidade. Analisando friamente a complexidade das identidades e das prioridades políticas dentro da comunidade latina, é essencial reconhecer que ela não é homogênea. Nos EUA, ela é composta de subgrupos com histórias, origens e prioridades variadas, incluindo imigrantes de diferentes gerações, além de descendentes de países como México, Cuba, Venezuela, Colômbia, Porto Rico, Honduras, entre outros. A percepção política, partidária e das necessidades econômicas e sociais muda conforme a realidade de cada um desses subgrupos.
É preciso levar em consideração que para muitos latinos, especialmente os que possuem pequenos negócios ou trabalham em setores vulneráveis, a promessa de políticas econômicas que reduzam impostos e desregulamentem o mercado se mostrou atraente. Durante a presidência de Trump, a economia experimentou uma taxa de desemprego historicamente baixa e um crescimento considerável em áreas que empregam muitos latinos, como construção civil e serviços. Além disso, eleger um candidato que enfatizava uma agenda de “law and order” (“lei e ordem”) também ressoou com eleitores que vivem em regiões onde a segurança pública é uma preocupação constante.
E o que dizer dos latinos de origem cubana e venezuelana? Estes possuem uma relação delicada com o socialismo, já que muitos fugiram de regimes autoritários ou famílias que sofreram as consequências dessas políticas. Quantos desses perderam tudo em seus países? Esse público viu no candidato republicano alguém que defende uma postura firme contra o socialismo, enquanto muitos associaram o Partido Democrata a tendências políticas que, para eles, poderiam levar o país a um cenário semelhante ao de suas nações.
Importante ressaltar que embora Trump tenha sido bastante categórico sobre endurecer políticas de imigração, seu governo focou em grande parte na imigração ilegal. Alguns eleitores latinos, especialmente os que já possuem cidadania ou status legal, veem a imigração ilegal de forma negativa, especialmente quando a consideram um fator de concorrência no mercado de trabalho e na competição por serviços públicos.
Kamala Harris, embora tenha se identificado como uma mulher afrodescendente, não se identificou diretamente como latina, e isso pode ter limitado o apelo junto a essa população. Harris representa a diversidade, mas de uma maneira que nem sempre ressoou culturalmente com os latinos, para quem a identidade é uma questão complexa e sensível. Há especialistas afirmando, não sem razão, que a preocupação com a pauta identitária levou a um distanciamento do público; o que pesou severamente na escolha do voto. Nesse sentido, Trump soube ser mais direto, usou uma linguagem mais incisiva, atraindo para si a maior parte do eleitorado.
Esse conjunto de fatores aqui analisados mostram que a comunidade latina não vota como um bloco monolítico – como alguns poderiam acreditar… É essencial compreender esses matizes todos de realidade para entender o porquê tantos latinos optaram pelo candidato republicano. Há muito de pragmatismo nisso, priorizando questões econômicas e de segurança. Os latinos não são ingênuos e estão atentos a como os partidos abordam suas preocupações específicas. Isso desafia o estereótipo de que comunidades de minorias votam exclusivamente por uma visão ideológica, mostrando que, muitas vezes, o voto é resultado de um cálculo cuidadoso que envolve ganhos e perdas pessoais.
*O autor é teólogo, redator, historiador e escritor | mafiorito21@gmail.com







