Por que a cultura norte-americana reprova a mentira de forma tão severa?
Marcos Antonio Fiorito* (Artigo publicado em blogs e outros veículos em setembro de 2024).
Mesmo quem não vive nos Estados Unidos da América, através de boa leitura, noticiário e mesmo da filmografia tem a impressão de que mentir para os norte-americanos tem um peso muito grave. À primeira vista e de modo geral, parece que os filhos daquela nação avaliam de forma mais severa quem mente do que um latino-americano. O que não deixa de ser algo muito intrigante; e, claro, faz a gente se perguntar o porquê disso.
Culturalmente, os Estados Unidos têm uma forte tradição de valorizar a verdade e a transparência, especialmente em ambientes públicos e profissionais. Isso pode estar ligado à herança puritana, ao sistema jurídico rigoroso e à ênfase nos valores democráticos e de confiança social. Mentiras e enganos, quando revelados, muitas vezes causam indignação pública e podem ter consequências severas, especialmente para figuras públicas, políticos e executivos. Isso fica evidente em escândalos políticos, como o famoso caso Watergate, e em casos de fraude corporativa.
Um exemplo recente é o caso do ex-presidente Donald Trump e suas alegações sobre um relacionamento com Stormy Daniels, uma atriz de filmes adultos. Trump negou ter tido um relacionamento extraconjugal com ela, mas depois foi revelado que ele pagou silenciosamente a Daniels para que ela não falasse sobre o caso durante a campanha presidencial de 2016.
Outro caso contemporâneo, e que teve grande repercussão nos EUA, foi o escândalo envolvendo Sam Bankman-Fried e o colapso da sua empresa de criptomoedas, a FTX. Bankman-Fried era considerado um gênio no mercado de criptos, mas a queda da FTX em 2022 expôs uma complexa rede de mentiras e fraudes financeiras. Documentos revelaram que a empresa estava insolvente, escondendo isso com base no valor inflacionado de seus próprios tokens. Investidores perderam bilhões, e Bankman-Fried foi preso sob acusações de fraude. O escândalo continua a impactar o mercado de criptomoedas e gerou grande indignação pública.
Nos países latino-americanos, por outro lado, a forma como as pessoas percebem a mentira pode variar mais, dependendo do contexto social, histórico e cultural. Em algumas regiões, a flexibilidade na interpretação da verdade pode ser mais comum, possivelmente devido a uma cultura política historicamente mais corrupta ou à necessidade de se adaptar a sistemas institucionais menos confiáveis. Isso não significa que os latino-americanos aceitam a mentira de maneira geral, mas pode haver uma maior tolerância ou compreensão de que nem sempre as regras são claras ou justas.
No Brasil, para falar só de nosso país, denúncias que visam desmascarar pessoas públicas têm se acentuado, causando uma reprovação, à primeira vista, maior que no passado. Parece haver um certo despertar a respeito, embora notícias falsas provenientes de gente inescrupulosa – e também criminosa – ponha em xeque o que poderíamos chamar de sensibilidade por parte da opinião pública. Por outro lado, o excesso de notícias sobre esses escândalos pode levar à banalização destes, tornando-os cada vez mais corriqueiros na percepção do brasileiro.
Portanto, pode ser correto afirmar que, em termos gerais, os norte-americanos tendem a ser mais severos ao julgar uma mentira, especialmente em contextos públicos, políticos e empresariais. No entanto, as percepções variam conforme a situação e o contexto cultural de cada país.
*O autor é teólogo, historiador, redator e escritor | mfiorito21@gmail.com







